Na sombra do herói: masculinidades em crise nos filmes do Oscar 2026" - Jornal Público, 2026
- Bárbara Bergamaschi
- 15 de mar.
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Percebam a coincidência: todos estes filmes têm como personagens centrais homens complexos, falhos, por vezes geniais, quase sempre tomados por grandes ambições. Homens que não conseguem agir plenamente no mundo, cujo lugar ou posição social parece ter-lhes sido retirado. Homens que têm ao seu lado grandes mulheres, fortes e potentes, mas que se veem impossibilitados de exercer plenamente a própria agência, mergulhados numa espécie de paralisia, tal como Hamlet, de Shakespeare.
É justamente este o enredo de Hamnet, de Chloé Zhao, onde vemos um Shakespeare (Paul Mescal) angustiado, incapaz de realizar o seu desígnio no mundo: ser um artista. Enquanto ele hesita, quem o sustenta, instiga a sua criatividade e o conecta com a terra é a sua mulher, Agnes, intepretada por Jessie Buckley numa performance que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz. Figura quase arquetípica, entre bruxa e curandeira, é a força telúrica que sustenta o gênio masculino. É ela quem diz: “Vá para Londres”. Estamos novamente diante da velha fórmula: por trás de um grande homem, uma grande mulher.
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